Domingo, 24.05.15, por volta das 16h.

Talvez no dia mais importante do automobilismo mundial, com GP de Mônaco de F1 e Indy 500 acontecendo em poucas horas de diferença, lá fui eu para a quarta etapa do campeonato Stock Racing da StockKart.

Sim, foi mais uma corrida espetacular…

Até então fui pra pista com o objetivo de superar meus dois grandes rivais do campeonato até aqui, Marcello Romani e Rafael Mansano, e sair do kartódromo ponteando o campeonato. Eu achei que poderia não aguentar fisicamente durante toda a prova, já que na sexta-feira anterior vinha de 39,5 graus de febre e uma gripe duríssima.

Mas chegou a hora. A concentração era tanta que até esqueci as condições mais frágeis.

No treino de classificação meti a faca nos dentes, buscava limpar o caminho e puxar o máximo de vácuo, encarando cada curva como a mais importante. Fim de treino e vi o número do meu kart (1) no topo do placar eletrônico, talvez o número fosse só uma boa coincidência, mas a pole era minha.

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Formado o grid, olho pra esquerda e o sempre veloz Christian Doin. Na fila de trás “os caras”; Marcello Romani era terceiro e Rafael Mansano o quarto.

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Bandeira verde e mandei bala! Chris largou melhor, pulou na frente, mas logo na sequência levo um empurrão do Marcello, que me ajuda a ganhar velocidade, me possibilitando frear mais tarde e retomar a ponta já na primeira curva. A partir daí liderei as 5 primeiras voltas sozinho, só que numa pista longa, com o curvão do oval, velocidade é fundamental.

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Eu nitidamente não era o mais veloz de reta e os caras atrás, com inteligência, se empurraram o suficiente pra conseguirem tirar a diferença e se aproximar.

Eis que eu começava a ver na pista, pelo reflexo do sol, a sombra do kart detrás colado.

A batalha começou, só que apenas entre eu e o segundo colocado; Marcello Romani

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Mas aí entra a experiência, o conhecimento, a maturidade e a tranquilidade, coisa que faltou bastante na bateria anterior. Quando chegou em mim, Marcello começou a me empurrar ao invés de tentar ultrapassar. Resultado: nós dois sumimos na frente de maneira contundente. Depois de algumas voltas me empurrando, Marcello mergulhou pra ultrapassar e foi. Nem me defendi, justamente porque ele estava me ajudando muito.

Papeis invertidos e eu começo a empurrá-lo.

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Foram cerca de apenas 4 voltas assim, e mais uma vez Marcello dá um show de sabedoria.

Percebendo que daquela forma estávamos cerca de 3 décimos mais lentos por volta, ele abre o caminho pra eu retomar a ponta. Sim, ele me deixou passar de volta. Ele fez isso porque notou que se eu andasse na frente com ele me empurrando, iriamos mais rápidos.

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É, assim foi. Mais umas 10 voltas ele me empurrando e o final da prova chegando.

Faltam 3 voltas…  faltam 2 voltas… E minha cabeça num questionamento intenso e inédito: Eu tô em primeiro, posso ganhar? Sim. Mas devo ganhar??

Eu não teria liderado tanto, não teria andado tão rápido se ele não tivesse me empurrado tanto. Ele me passou e me deixou passar. Devo tirar o pé e deixar um concorrente direto vencer? Estes pontos podem faltar no final.

Puta conflito na minha cabeça…  Eu queria ganhar. Mas aí pensei: esse cara brigou limpamente comigo nas duas corridas anteriores, nesta está dando um show de disputa ética, está dando exemplo e é um baita piloto.

Portanto pensei: na última curva vou abrir a possibilidade dele botar o kart do lado. Se ele tentar ultrapassar eu não vou fechar.

E assim foi.

Fiz o sinal pra ele passar, ele me passou na última curva, entrando na reta.

Mais do que os pontos ganhos ou perdidos, foi a gratificação. Aliás, quando cruzamos a linha de chegada, mesmo com capacete e com o barulho do kart, consegui ouvir a gritaria da torcida dele. Foi animal!

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Gostaria de que houvesse filmagem deste dia, apesar de que ficará gravado pra sempre em minha memória. Quando chegamos nos boxes, descemos do kart e nos encontramos, ele veio até mim e me disse depois: “André, que corrida…  Você pilota demais, cara.” (como se ele não pilotasse demais).

Depois disso senti uma tranquilidade e uma paz imensa e aí sim o cansaço pesou como imaginei lá no começo do texto. Não queria nem ficar em pé e, totalmente exausto, saí com sentimento de missão cumprida, tanto tabela de pontos quanto na consciência.

Que venha a quinta etapa!

😉